Gatas na pistaEspalhadas pelo morro. Agitadas pelas estradinhas comentando assuntos mil. Compenetradas com alguma tarefa de apoio importante. Fotografando ou filmando seus parceiros encarapitadas em rochas e pontos estratégicos. Ou mesmo por ali apenas assistindo aos acontecimentos, um olho na pista, outro da galera.
Lá estão as gatas que não competem diretamente, mas influenciam e muito todo o ambiente. O cenário é de um grande evento. Algo forte está rolando. Rola morro abaixo, rola morro acima, rola ao redor. A atmosfera está impregnada de excitação, adrenalina, cheiros de feras e feromônios, pico de hormônios. Muita festa, atitude, testa e testosterona. Se eu fosse mulher provavelmente estaria lá também. Eu acredito em feromônios, e você?
- Aí, como você se chama? Tá bom, estou fazendo uma crônica... posso conversar?
- Claro! O que ce tá querendo saber?
- Como você se chama e porque veio.
- Suzana. Meu namorado está competindo. Tá difícil, ele deve pegar só o oitavo, ele disse.
- Eu já estaria muito contente com isso. E aí, essas são suas amigas?
- É. A Mary e a Joana.
- Prazer! Vocês também estão acompanhando alguém?
- Não, só a Suzaninha aqui... Quem sabe alguém acompanha a gente no final... (risos)
- Posso tirar uma foto?
- ?...
- Chi, foi mal. Acabou a pilha.
Três gatas maravilhosas. Essa coisa de escrever às vezes dá entradas perfeitas para conhecer novas pessoas interessantes. Você está me acompanhando, não é?
- Vocês vão estar na cena do pódio?
- Acho que sim, depende do Chitãozinho. Sabe, depende da cabeça dele no momento, ele pode estar na frente, ele pode tomar rola, depende.
- Você então namora o Chitão? Pô, ele desce maneiro. O cara é fera.
- É sabe que ele chama assim por causa daquele animal que corre muito, aquele que parece que tem lá na África.
- Diz que esse bicho corre mais que notícia ruim em terra de comadres... Depois que ele acaba sua descida, o que você costuma fazer?
- Ah, sempre corro lá para falar com ele, saber como foi, né? Mas logo em seguida não é legal porque o cara tá muito adrenado, não segura conversa nenhuma. Bom, eu sempre curto essas coisas. Depois, sei lá, a gente ajuda com a bike, a por ela no carro, aí tem o papo de bebidinha, sanduichinho. Ajudo a pegar coisas no carro, trocar de roupa, passo a toalha, lencinho de bebê...
- Maravilha. E vocês, já se deram bem em alguma prova?
- Cara, o que tem de gato por aí não é normal. Mas não é que nem em balada. Não tem essa de beijar. Aqui rola mais devagar. Os caras detonam parece que só nessa pista aí.
- Vocês sentem uma coisa forte no ar, uma coisa meio louca, masculina?
- Só, pode crê. Tem mesmo.
- Vocês curtem isso?...
- Claro, meu. E eu ia ficar em casa numa hora dessas. Quero é estar aí no meio dessa muvuca toda.
- É tá bombando mesmo!
- Falaram e mandaram bem, gatas. Vô nessa que atrás vem pressa. Beijinhos, beijinhos, beijinhos.
- Valeu!
Mas também tem quem não goste. Quem não gosta uma vez, duas vezes, na terceira começa a detestar. Pode até agüentar mais um pouco, mas é inevitável. Vai acabar detestando. E quem detesta uma vez, na segunda acha insuportável. E quem acha insuportável uma vez, não volta mais. Briga, arranha, separa, sei lá. Não são poucas, infelizmente.
- Aí, o que tá rolando, minha cara. Tô fazendo um tipo de reportagem para o Bikezone. Queria saber o que você faz aqui. Pode ser?
- Pô, não faço nada. Quer dizer, depois que meu namorado começou os treinos, fico só esperando ele descer e aí ele nem tem muito assunto comigo, fica lá comentando com a galera sobre a pista, manobras e zoando os caras que não se davam bem. Pô, meu aqui é muito chato, vê se você tem saco de ficar horas sem fazer nada. O que que tem aqui? Só tem essa porra de pista, esse morro do caralho que não subo nem a pau. Pô, podia mesmo ter uns lances de caminhada, uns cavalos, sei lá, coisas legais para a gente ficar fazendo, uma lanchonete bem maneira com muito lugar para sentar e até ver a pista. Aí dava para juntar outras minas e ficar ali trocando umas idéias.
- Mas você não acompanha o cara, marca tempo, ajuda nesse papo de trazer uma coisinha aqui, levar outra coisinha lá?
- Ô, meu, até que me ligo nesse lance aí, mas, pô, fazer só isso durante horas e ficar sem fazer nada no meio tempo não é fácil. Aí me esqueço, ele estressa comigo. É mau.
- Você acha que se os caras fizerem umas pesquisas e forem criando essas coisas e outras mais para o pessoal que está só acompanhando, famílias, amigos... Quer dizer, você ia curtir mais a parada?
- Com certeza, seria demais.
- Como você se chama?
- Míriam.
- Então, Miriam, vou dar uma idéia. Se você topar, junte uma galera que está na mesma situação e faça uma lista, coisa simples mesmo, e passe as idéias para a organização. É um jeito de ir pressionando e ir dando uma luz para os caras.
- Qual é, ainda vou ter que dar um trampo free pros caras, meu?
- Não é isso, é só uma idéia para ajudar. Nada não.
- ...
- Bom, vou nessa, tchau!
- Tchau!
Tem gente que acho que está mais para reclamar mesmo. Mas isso não quer dizer que é a única forma de agir. Aliás, raramente reclamar é agir. Sempre, sempre tem alguma coisa que a gente pode fazer. Reclame só se você ainda não descobriu como. Não deixe de tentar sempre. Gatas que vão acompanhar alguém e que acabam se metendo na organização são muito raras. Não sei porque, me ajudem, me contem. E contem comigo para escrever o que quiserem.
Bom, tem muitas gatas que estão trabalhando. Belas fotógrafas. Fazem pose para capturar a pose alheia. Passam batom para encarar a câmera. Perfume para subir o morro. Tem as que filmam, entrevistam (de verdade), fazem produção, lanches. Tem as que ajudam na cronometragem, sempre iradíssimas quando um paisano sem noção (e está sempre cheio deles) ameaça passar pela célula fotoelétrica que faz a tomada de tempos. Tem as enfermeiras, algumas massagistas de mãos fortes, as promotoras de vendas.
Não, não esqueci de vocês velozes, furiosas e malucas que encaram a pista de cima e despencam por ela, seja de jeito for. Amo e admiro a todas. Felizmente meu cérebro tem um circuito que compensa as possíveis diferenças entre os sexos na hora da pedreira e vibro de verdade quando vejo uma mina na pista.
Mas todas essas minas são assunto para uma próxima vez. Hoje quero só celebrar aquelas que simplesmente estão ali. Sem elas, a coisa teria menos graça. Eu sei, mesmo quando você está 100% concentrado na pista ainda sobra algum bendito espaço para o registro dum belo rosto que olha para você, que grita e agita. Um belo par de pernas consegue acompanhá-lo por um bom trecho de pista, mesmo em manobras impensáveis. E quando você termina, essas visões furtivas e improváveis incorporam-se de alguma maneira à emoção do momento, nem precisa ser de forma consciente.
Insisto, hoje quero celebrar aquelas que estão lá porque simplesmente é lá que tem coisa acontecendo e exalando feromônios. E, talvez elas nem saibam, mas sua mera presença provoca ainda mais aquilo que elas estão buscando. Seja o que for. Seja o que Deus quiser. E que Ele nos acuda!
(Augusto Froehlich)
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Além da valiosa ajuda fazendo o papel de babá, carregando as coisas, fazendo massagem, enfim, "ajeitando" tudo, o mulherio nas corridas dá um ânimo maior. Sabe aquela vontade que todo homem tem de se exibir? Haha, é a oportunidade perfeita.
Mas sabe o que é melhor? É terminar aquela corrida e ter alguém pra abraçar e comemorar a vitória (não restringindo ao pódio) ou chorar a derrota. Essa sensação não tem preço.
Um relacionamento é construído através dessas simples coisas. Não me refiro apenas ao ciclismo, mas a tudo na vida. É tão bom quando temos a pessoa que gostamos por perto nem que seja só para dar uma volta no parque ou acompanhar em uma simples consulta médica.
Essa presença é que faz com que as pessoas se tornem especiais. Contudo, não estou falando que devem viver sempre "grudados", afinal cada um precisa do seu espaço, mas falo que esses momentos que podem parecer bestas, são os que mais solidificam uma boa relação. É aquele lance do companheirismo, hehe.
Uma ótima semana para todos.







